cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





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26.12.14

"no instante da partida ha sempre uma demora, nao do tempo - da vida"


diz o povo que, nas familias, quando nasce uma pessoa ha outra que desaparece. este mês, morreu a minha tia-avo. poucos dias depois da m. ter nascido. morreu sem que nada o fizesse prever, no dia dos anos do n. tinha 90 anos. sobre a minha tia avo ja falei aqui pelo menos duas vezes, uma sobre a sua paixao por lisboa e sobre os seus passeios nunca sem uma pequena pausa para beber uma ginja, falei sobre ela frequentar os clubes de fado de campolide, bairro onde nasceu e viveu toda a sua vida e depois contei a historia da old england, onde ela trabalhou como costureira a fazer casacos, e sobre os militares andarem fardados com modelitos feitos pelas suas maos e pelas maos da minha avo. uma mulher do exercito portanto, com um coraçao grande e um grande gosto pela vida. antes de ir, nao teve tempo de conhecer a m., mas fez questao de comprar-lhe estas botinhas, sem saber que ela era uma rapariga dos alpes. eu adorei-as e adorei esta coincidência inocente.

portanto fica aqui um grande beijinho cheio de carinho para a minha tia-avo, mulher de garras e de sorrisos, de colares e de chapeus, de fado e de lisboa que gostava de escrever o seu nome com dois t's.

27.4.14

4 anos


e ainda me lembro tao bem da tua voz doce e do teu riso malandro de quando te levava um chocolate às escondidas. era um segredo nosso, como tantos outros. coisas que existem numa dimensão diferente, na relação entre avos e netos. se aquele chocolate te fazia bem ao corpo? nao, nao fazia, mas era dos poucos "males" que valia a pena desafiar para proporcionar uns instantes de prazer à alma. 

sabes, isto anda cinzento, por aqui. ha muitas pessoas a irem embora para aí, onde quer que isso seja. gosto de pensar que ha uma vida depois da morte e gosto da historia de beber agua do rio do esquecimento. mas também gosto de pensar que ha uma vida na morte e que de facto as pessoas voltam a encontrar-se. juntam-se numa mesa, olham ca para baixo e conversam como quem sabe qualquer coisa que os outros nao sabem.

10.2.13

no mar



no inicio do ano passado, o meu pai telefonava-me a chorar compulsivamente a dizer que tinha sabido que ela nao estava bem e contou-me uma historia que eu nao conhecia de quando eles eram novos. o meu pai levava o l. de carro até uma paragem de autocarro onde estava a p. e assim começou o namoro deles. choramos os dois. em agosto a minha mae, feliz, enviou-me uma mensagem a dizer ela ja estava curada. e eu chorei outra vez. de alegria. e ha um mês, parece que foi tudo muito depressa, as coisas voltaram a  nao estar bem e ela nao voltou a casa. a p. com um sorriso tao doce, grande, branco, com um rosto tao sereno, com uma voz tao tranquila. com caretas pelas quais ninguém esperava e com um sentido de humor subtil. a p. a sorrir mesmo quando o coraçao parou de bater.
a memoria é das coisas mais incriveis que podemos ter. e é por isso que mesmo sem estares presente te tornaste imortal. nos videos que guardamos de ha muitos anos atras, sim. mas sobretudo na nossa memoria e eu so me lembro de coisas boas e bonitas tuas.

11.9.12

ha onze anos

... ja foi ha onze anos...

lembro-me bem desse dia. eu trabalhava na fnac do chiado e sai das boxes para ir ao spv tratar do envio de uma encomenda de livros para uma universidade. atravesso a literatura portuguesa, a literatura estrangeira, ponho um pé na escada rolante, depois o outro e vou subindo com as escadas. no cimo viro à direita e, em frente à bilheteira, de bocas abertas e olhos fixados nas televisoes que ali estavam na altura, uma multidao em silencio absoluto e aterrorizado.

30.8.12

da efemeridade


chega o dia em que nos lembramos que somos efémeros e que ha coisas contra as quais nada podemos fazer. chega o dia em que temos que passar por coisas que sao primeiras coisas nas nossas vidas e que, se sao boas, é para aprendermos ou para nos trazerem boas noticias. um desses dias ja passou. adormeci a pensar que tinha medo e em qual seria a sensaçao de adormecer de forma nao natural. sao talvez dois minutos, a visao fica desfocada e de repente mais nada. so temos tempo para pensar que se acordarmos sera bom, se nao acordarmos nunca vamos perceber que nao voltamos. e apenas o facto de sabermos que nao nos vamos aperceber é reconfortante. eu acordei eram 13h10 e creio que a primeira coisa que disse foi: afinal também se sonha quando se esta anestesiado.

16.4.11

até um dia

... ainda ontem abril me fazia sorrir, mas a noticia fez-me lembrar que afinal abril não é um mês com tanta docura...




... eramos crianças. "o nacional" enchia-se de pessoas aos fins-de-semana, para irem às piscinas, fazerem o percurso do atlestismo, comerem gelados ou verem jogar a equipa de basket do nacional... as bancadas repletas de pessoas, e nos também estavamos la, a gritar pelos nossos pais que faziam delirar a plateia... ja eramos todos amigos antes de nascermos, porque os nossos pais também ja eram amigos... e sempre serão... r. ficaras sempre na minha memoria a correr naquele campo de basket, à beira da piscina a vigiar os nossos mergulhos mais ousados, na parte em que não tinhamos pé, a filmar as nossas festas de anos, a bater palmas às nossas coreografias, à noite na vossa casa ou na nossa a conversarem no sofa enquanto as nossas mães jogavam às cartas ou a jogarem às cartas com elas... e nunca me esquecerei do teu sorriso reservado, da tranquilidade na tua voz, da tua paciência, da tua presença amiga... espero que tenhas partido com toda esta serenidade... ficaras para sempre nos nossos corações e nas nossas recordações...

26.4.10

avó

hoje gostava tanto que continuasses a ser a mesma maria das dores... mas que pudesses mudar de nome e que te chamasses maria da força e que conseguisses superar isto tudo... escrevo-o aqui, porque hoje ja o disse muitas vezes para dentro de mim, e ja o disse muitas vezes em voz alta ... e agora escrevo-o e espero que estas três formulas todas juntas cheguem a ti, que as oiças e que elas te acordem... e que o teu coração volte a bater como dantes e o sangue te traga cor... ou simplesmente te traga...

26.9.08


a c. passou anteontem pela mediateca. o filho vai casar com uma rapariga portuguesa e ela e o marido querem surpreender os compadres. por isso, ela veio saber se o método de português, comprado na semana passada, já estava disponível. a c. pertence, agora, à associação m., vem também dar aulas de francês às sextas-feiras. veio pela primeira vez na semana passada e estava inquieta. conversa para aqui conversa para ali, eu disse-lhe que muito provavelmente não iria à associação nos dias de inverno quando nevasse porque a estrada costumava ser má para subir. ela perguntou-me onde é que eu morava e eu disse-lhe. a expressão alterou-se e ela perguntou: ouviste falar no rapaz que foi encontrado morto ontem? não, respondi! Ela diz-me, eram 40 pessoas à procura dele. encontraram-no enforcado, num lugar muito alto com a vista mais bonita sobre bsm...

e
outra vez estas palavras, esta história...

ontem vim almoçar a casa e ao descer vi esta imagem... tanta ironia, mesmo aqui ao pé do lugar que ele escolheu... há já algum tempo que ali está, mas só reparei nela a sério ontem... e sei que não acabou... há muita solidão... se calhar quase tanta como as montanhas que nos rodeiam... são quase sempre rapazes... umas vezes é aqui, outras da barragem... para ser irreversível...

1.4.08

... as escadas à porta de casa... ou a estrada do leiteiro...

é um sítio todo branco no inverno... verde fluorescente no verão... cheio de cores quentes no outono... e como é que num lugar assim há sempre uma nuvem negra?


o n. telefonou-me agora, está a festejar com os colegas de trabalho.

-"ça va?"

-"non ça ne va pas"

-"qu'est-ce qui se passe?"

-"g. s'est pendu"


silence.

"... c'est un poisson d'avril, ce que tu me fais là?"

"non, on ne fait pas des poissons d'avril sur des histoires comme ça"


o g. era um colega do n.
o tempo do verbo é-me estranho.


o g. era um rapaz ruivo com muitas sardas. tinha25 anos. era tão sorridente... um sorriso tímido que o tornava ainda mais sincero. era ele que fazia os queijos mais famosos da região. era ele que passava por aqui todas as manhãs para recolher o leite. era a ele que eu perguntava como estava a estrada sempre que nevava. era com ele que eu falava sobre os livros da anna gavalda na mediateca. foi a ele que enviei uma carta pelo atraso na entrega dos livros requisitados há coisa de um mês. foi a ele que eu disse tantas vezes "il faut que tu passes boire l'apero" e ele dizia "avec plaisir". foi a ele que eu disse um dia que tinha encontrado uma carta de amor da namorada esquecida dentro de um livro que ele entregou. foi ele que encontrei com a namorada há pouco tempo no supermercado. foi com ele que o n. foi esquiar há dois meses...


e é sempre assim... nada faria pensar que...


... e agora ele não está cá. e já não poderá vir beber o aperitivo. já não virá recolher o leite e o "beaufort" já não terá o mesmo sabor...

o n. diz-me:

-"je n'arrête pas de l'appeler sur son portable, mais j'ai toujours le message: le numero demandé n'est pas atribué~"

eu digo-lhe que não vale a pena continuar a ligar, mas ele não quer acreditar...


... e neste momento penso nesta frase:

il faut dire aux gens qu'on les aime

... avant qu'il ne soit trop tard...