Quando penso em vizinhos a
primeira imagem que me vem à ideia é a da minha rua, com a fileira de prédios de
cada lado sobre 400m de comprimento, digo eu de cabeça.
No verão, o sol do final de tarde
reflete-se nos vidros das janelas e os efeitos são maravilhosos. Os vizinhos
estão de tronco nu à janela, as senhoras estendem a roupa (coisas que ainda
custam a mudar), os cães vêm espreitar por entre as grades das varandas que não
se transformaram em marquises.
Tirando os 10 anos que vivi em França, morei sempre na mesma rua, em São Domingos de Benfica. Não trocaria
este bairro por nenhum outro e muito menos nos tempos que correm. Nasci aqui,
cresci aqui. Sei os nomes dos comerciantes e alguns sabem o meu nome. Nestes
anos, as pessoas que cresceram comigo e com o meu irmão nesta rua continuam a
viver ali. É muito fácil convocarmos recordações de quando éramos crianças, de
quando a rua ainda não tinha árvores, de quando não havia problemas de lugares
de estacionamento e podíamos jogar ao lencinho no meio da estrada e andar de bicicleta
quase de olhos fechados e com alguém em cima do volante.
Desde que nasci, no número 15
desta rua e até 2017 (data em que mudei para o número 5) sempre vivi com os mesmos vizinhos. Não os
esqueço. Eramos como família afastada a viver no mesmo prédio. Tínhamos mais proximidade
com uns dos que com outros, como em todas as famílias.
O número 15 não tinha rés-do-chão.
Tinha uma pequena porta onde, subindo os quatro degraus do patamar, alguns de
nós guardavam as bicicletas. Mas este espaço servia essencialmente para a
porteira, a D. Maria José, arrumar os baldes, esfregonas e produtos para lavar
a escada.
No primeiro esquerdo morava a
Dona Ângela, o marido, a Lena e o Rui. A dona Ângela era madeirense, o sotaque
dela não enganava ninguém. Lembro-me, do alto do meu terceiro andar, olhar pra
baixo e invejar-lhe a varanda espaçosa com espreguiçadeiras. Passavam muito
tempo lá fora, sobretudo no verão. Eram vizinhos com sorte. O marido da Dona Ângela
morreu, os filhos casaram e foram viver para outros lugares e por fim, faleceu
a Dona Ângela, creio que por alturas da minha mudança.
No primeiro esquerdo moravam, e
ainda moram, A Dona Delfina e o marido, a Ana e a Suzy. Penso nas razões que me
fizeram esquecer os nomes dos vizinhos homens, mas não perco tempo com isso. De
qualquer maneira, cada vez que se queria pedir qualquer coisa era: tenho de
perguntar à minha mãe. Para coisas mais sérias era o pai que tomava as
decisões. Neste apartamento que tinha uma varanda em espelho com a da Dona Ângela,
esta família passava pouco tempo, mas havia flores e uma mesa branca, daquelas
que parecem bordadas, com cadeiras à volta. As miúdas tinham um cão de raça boxer
que passava muito tempo lá fora a ver quem passava. A Suzy tornou-se
veterinária e a Ana contabilista. Com os anos aproximei-me mais da Ana e a Suzy
acabou por juntar-se e ir viver para longe. A Ana tem gatos e adora-os. Passa as
noites a fumar e a fazer contas por causa do trabalho. Sempre a achei um crânio.
Quando a minha gata ficou doente, a Ana subia todos os dias de madrugada à
minha casa com o seu robe para me ajudar a dar o comprimido à Sidonie, que
recusava abrir a boca e se a abria logo cuspia o remédio.
No segundo esquerdo morava uma
das minhas amigas de infância, a Sara. A nossa amizade vai ficar para sempre,
ainda que não nos encontremos muitas vezes. A Sara vivia com a mãe, a
Mariazinha, com o pai, o Vitor, com a caniche, a Nani e com o papagaio, o
Jacob, que falava para a rua toda. O Vitor passava muito tempo a ensinar-lhe
frases e palavras e o gajo aprendia. Era daqueles papagaios cinzentos, muito
feios. Também tinham periquitos. A varanda da cozinha deles era para mim um
tormento. Não gostava de pássaros eles queriam à força que eu fizesse festas na
cabeça dos periquitos. Mas para quê, se eu não queria e me fazia impressão? Um dia
a Mariazinha fechou-se comigo na casa de banho, para me fazer ver que aqueles
pequenos bichos não faziam mal a ninguém. Sentou-me ao colo dela e de dentro do
bolso da frente do avental tirou um pequeno pássaro amarelo. Desatei a berrar,
não sei se pela traição se pelo confronto.
Aos fins-de-semana eles iam todos
para o CCL na Ford Transit. Tinham lá uma daquelas tendas muitos grandes com
quartos e sala e por vezes convidavam-me para ir com eles. Eu e a Sara eramos
inseparáveis e todos os minutos que passávamos juntas, a ver o catálogo da la
redoute ou a conversar pelos dias adentro, eram preciosos. Foi com ela que vivi
os primeiros amores, foi a minha primeira confidente. Até quando fiquei com
varicela fechada em casa ela subia e ficava do outro lado da porta a conversar
comigo e a fazer pulseiras de fios coloridos. Sobre a Sara e a nossa amizade
tinha tanta coisa para contar, mas não quero fazer esperar os restantes vizinhos.
No segundo esquerdo morava o
vizinho Carlos que teve uma primeira esposa, creio que era a Susana. Eles eram
muito discretos e raramente estavam em casa. Conheço-lhes os nomes porque
muitas vezes o carteiro punha por engano as cartas deles na nossa caixa do
correio e porque o vizinho Carlos era político. A Susana foi-se embora e veio
outra senhora viver com ele. Era psicóloga e tiveram uma filha, a Rita. Mas eu
estava a crescer e a Rita era bebe, de maneira que nunca brincámos. Anos mais
tarde o vizinho assumiu um cargo político com maior visibilidade e, se não
estava no andar de baixo, entrava-nos pelos televisores adentro.
No terceiro esquerdo morava o meu
amigo Artur, a Teresa e o Vitor. Na família deles, o que mais me intrigava era
que fossem primos direitos. O Vitor era colega da minha mãe e a Teresa tomava
conta de crianças em casa. É uma profissão em vias de extinção. Por aquele
patamar passou muita miudagem. Chegavam de manhã com os pais e iam embora ao
final da tarde. O Artur terá sido o meu primeiro “namorado” e juntamente com a
Sara, passávamos muito tempo a brincar. Um dia a Teresa foi para o hospital. Tinham
de lhe ‘substituir’ o coração, que não funcionava bem e o Artur ficou a dormir
em nossa casa. A Teresa voltou e o Artur voltou para o quarto dele. Lembro-me
de nos momentos de zanga com os pais, o Artur às vezes levar uma trolitada que
o mandava pelas escadas abaixo. Ele ria-se às gargalhadas. Já não sei se era
ele que se atirava ou não, mas no meio da zanga nem os pais dele conseguiam ficar
sérios.
Aos fins-de-semana, quando íamos à
piscina do nacional e levávamos a Sara e o Artur era uma ramboia. Que felizes
eramos.
No terceiro direito morávamos nós,
Joana, João, Lila e o Zé.
O prédio tinha oficialmente três
andares, mas no piso de cima ainda tínhamos, no quarto esquerdo, a Dona Maria
José, que todas as noites tocava às nossas portas para levar os sacos do lixo e
às sextas-feiras ao final da manhã lavava as escada. Nos dias de verão, por
causa do calor, fazia a limpeza mais cedo. A Dona Maria José era casada com o
senhor Mendes, sapateiro, que arranjava os sapatos dos vizinhos todos, nas traseiras
do prédio, que eram quintais abandonados. Naquele que parecia pertencer-lhe
tinha uma casinha onde fazia os trabalhos. Creio que chegou a ter galinhas.
Aliás, a alcunha do filho, o Luis, que também vivia com eles, era o galinhas,
mas não me recordo da origem desse nome. Reza a lenda que naquele terreno onde
o senhor Mendes consertava sapatos, havia um poço onde tinha morrido uma
criança afogada. Nunca cheguei a saber se era verdade, mas sonhei com isso
muitas noites.
Por fim, no quarto direito, que
foi uma parte do prédio construída sabe-se lá com que licenças, vivia a Dona
Rosa que tinha um sotaque que assobiava e que passava roupa a ferro. Passava a
nossa também, porque a minha mãe não tinha tempo para tudo. De maneira que à
noite batia-nos à porta e levava cestos cheios de roupa com o cheiro da casa
dela que era o da naftalina. Eu não gostava daquele cheiro, mas era importante
vestir roupa engomada. A casa da Dona Rosa parecia ter uma assoalhada única ou
talvez tivesse um quarto escondido. Era uma casa pequena. Ali no quarto andar,
durante o verão, fazia um calor que tornava o ar irrespirável. A Dona Rosa
tinha um senhor lá em casa por intermitência, não sei se pelo trabalho dele se
pelo facto da relação deles ser assim mesmo. Moderna para aqueles tempos. A
Dona Rosa foi a primeira vizinha do prédio a morrer. Teve cancro na mama. A casa
dela não voltou a ser ocupada, nos tempos em que vivi no prédio e a minha roupa
não voltou a ser engomada por mais ninguém.
Em 2017, o meu pai morreu e eu
tive de deixar o prédio, porque a casa era alugada e o contrato estava em nome
dele. O prédio foi vendido a uma pessoa que achou que o que aquela rua estava
mesmo a precisar era de um Hostel.
O prédio começou a ficar
degradado, sujo, construíram às quatro pancadas uma recepção, no espaço onde
anos antes arrumávamos as bicicletas. Havia não sei quantos caixotes com lixo la
dentro, faltava a luz no prédio. Havia barulho. Longe iam os tempos da vida
saudável da vizinhança. Porém, alguns vizinhos continuavam a morar ali,
partilhando patamares com pessoas que iam e vinham e faziam barulho. Ali não
era a casa delas e estavam-se nas tintas para quem lá morava.
Uma tarde, em que fui buscar o
correio a casa do Vitor, vi a porta da ‘minha’ casa aberta e pedi para entrar. A
sala, onde eu e o meu irmão víamos o clube dos amigos Disney, deitados em cima
um do outro no sofá, estava ocupada por quatro beliches cinzentos. O meu quarto
e o quarto dos nossos pais eram umas ‘suites’ de extremo mau gosto. A casa de
banho já não tinha banheira, a despensa era uma recepção. Fiquei desolada. Sempre
achei que as casas pertenciam a quem morava nelas anos e não a quem tinha
dinheiro para as comprar.
Felizmente para este prédio veio
o COVID e o Hotel foi para o camandro. Creio que a vida voltou ao normal, mas
sem a Dona Maria José que regressou à terra e que nos mantinha o prédio sempre
impecável a troco do aluguer. Por vezes, pergunto-me se ainda estará viva.
Hoje continuam a morar no número
15 a doce Dona Delfina, a Ana, a Mariazinha e o Vitor.
São os sobreviventes. Vou-me
cruzando com eles na rua, perguntam pela menina, pelo meu irmão e pela minha
mãe. Estão velhinhos. Conheço-os há tantos anos.
estes são os vizinhos
da Carla
da Marisa
da Mariana
da Calita
da Rita