cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





17.4.26

Num abrir e fechar de olhos


Não estava a dar com este tema. Pensava em Do dia para a noite e dizia ‘não não, não é isto’ e tinha sempre de voltar às conversas para perceber qual era realmente o assunto.

Encalhei ali e os confins do meu cérebro lá saberão por que razão. Ia falar de uma coisa que me atormenta, mas eis que hoje, no Arco do Carvalhão, passa-me pela frente, na passadeira, o moço dos recados do Talho dos Mestres. Bata branca suja de sangue e saquinho de plástico azul, dos mais pequenos, certamente levaria ali, supus, 1 kg de carne picada, para fazer hambúrgueres ou almondegas. Nunca saberei nem saborearei. O que é certo é que não levava carne picada para fazer bolonhesa. O rapaz passou e lembrei-me do Talho da minha rua. Está ali desde que me lembro. Continua a ser gerido pelo Pedro, talhante com gaguez severa, na qual já ninguém repara por se ter normalizado e fazer parte da nossa vida. Dos nossos tachos. Há dias em que o Pedro demora muito a dizer certas palavras, mas ali, ninguém tem pressa. No Talho, que se chama só assim, também eles têm esse serviço de entrega ao domicílio. De vez em quando, um dos empregados de bata branca passa para uma qualquer entrega. Um quarteirão e meio mais à frente, o Talho do Carlos, tem a mesma prática. Vemo-los facilmente pela indumentária dos empregados que se distingue das outras pelo boné branco. Não vejo outros comércios de rua que proponham entregas, que tenham recursos humanos que permitam dispensar uma pessoa para levar um ou mais produtos a casa de alguém. Nem sei se haverá despesas adicionais. Quando a charcutaria Baviera ainda tinha as portas abertas, o Sr. Ferreira tinha um rapaz a trabalhar com ele que levava as compras a casa de clientes e vejo, ainda por vezes, um rapaz no meu bairro com sacos diversos e a máquina do multibanco na mão. 

Se é um serviço humano ou social mais do que outra coisa qualquer comercial, ou uma mistura dos dois, não sei. O que sei é que embora vejamos todos os dias muitos Uber e Glovo e que as entregas se tenham democratizado nas nossas vidas graças a estes selos, nos comércios com pequenas lojas de bairro têm de ser eles a fazê-las. Mas acredito na minha primeira suposição, na de um bairro onde toda a gente se conhece numa rua como a minha onde reina a atenção ao próximo e a cultura da slow food contra o consumo de fast food.

Sobre a atenção ao próximo recordarei sempre, enquanto a memória mo permitir, este episodio com o Pedro. Numa tarde, numa rua de São Domingos de Benfica, a calma foi perturbada por uma voz feminina que gritava Acudam! Acudam! Do Talho da rua, com a bata branca e ensanguentada pelos ossos do ofício e de faca na mão, que estaria certamente naquele momento a cortar um bife o lombo, sai o Pedro a correr, no meio a sua heróica gaguez, mais rápido do que a sua voz dizendo aggg agggg agggarr e saindo-lhe sem mais demoras Agarraquéladrão. Parecia a matança, mas era tudo menos isso porque nem tudo o que parece é. As circunstâncias fizeram com que o cenário fosse aquele. Com auxilio do Armindo, ajudante do Pedro na altura, o ladrão foi imobilizado, a senhora recuperou os pertences e a rua do Montepio voltou ao normal.

Num abrir e fechar de olhos as coisas mudam

E hoje temos as entregas do talho ao domicílio, mas amanhã se calhar já não teremos, os moços dos recados serão como os ardinas que gritavam os títulos do dia e vendiam jornais nas ruas, ou como os cauteleiros imortalizados em estátuas em largos de Lisboa, vivendo em toponímias e lembrando que num abrir e fechar de olhos um dia é uma coisa que amanhã já não será.

O Largo está aberto. Se quiserem passar a ler o que várias mulheres têm a dizer sobre um mesmo tema, tragam uma cadeira e juntem-se a no
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