cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





13.3.17

leituras: karen

karen.
ha um tempo certo para todos os livros.


como responder à pergunta sem ponto de interrogação da pagina onze?
como explicar a mim mesma que as asas nos meus ombros ja nao brilham de noite?

i don't need to see you, i just need to feel you, when we make love, feel you in the dark.

assombras-me.

10.3.17

dias de cinema (119)


* * *
 

leituras: en attendant bojangles




« - vous jurez devant tous les anges que vous me suivrez partout, vraiment partout ?

- oui, partout, vraiment partout »

en attendant bojangles * olivier bourdeaut * finitude

dias de cinema (118)


* * *


almada na gulbenkian


almada para a alfaiataria cunha

que exposiçao tao bonita. e tao cheia. enquanto espreitava os quadros por cima do ombro das pessoas ocorreu-me que lisboa esta instransitavel e que os museus nao ficam atras. antes tinhamos direito à sala so para nos. dizia-se que os portugueses nao se interessavam pela cultura. agora todos se interessaram. portugueses e nao portugueses olham para os quadros atraves do ecra do telefone. o almada estava cheio como um parque de estacionamento. entravamos conforme o numero de pessoas que ia saindo. 
EnregistrerEnregistrer

4.3.17

dias de cinema (117)


* * *

leituras: beaux rivages


"j'éprouvais un bonheur fier de l'avoir rencontré, qu'il m'ait choisi, de pouvoir lui écrire tout ce qui me passait par la tête, depuis mon lit, dans les nuits chaudes d'un été qui semblait s'ouvrir"

beaux rivages * nina bouraoui * lattès

leituras: kabi, la poule qui ne voulait pas être une poule



"pour la première fois de sa vie, lalla khadija a eu du mal à se lever. elle a limpression en posant le pied par terre davoir été rouée de coups, cest comme si elle avait reçu une volée de son propre bâton, tellement ses muscles lui font mal."

kabi, la poule qui ne voulait pas être une poule * fatima sarsari* l'harmattan

27.2.17

para sempre



o meu pai morreu. 

faz 15 dias e acho que so percebi isso hoje. os estores da casa dele nunca mais abriram. ele nunca mais veio à janela ver-me entrar em casa. nunca mais me pediu para comprar bolos com creme. nunca mais fez sons com a boca ou bateu palmas para nos chamar. o meu pai era um excelente conversador e tiraram-lhe as cordas  vocais. deixou de falar e essa foi a primeira facada que lhe deram. ele aprendeu a viver com isso. muito melhor do que alguma vez eu imaginei. até ele. tinha muito orgulho quando lhe diziam que percebiam perfeitamente o que ele dizia. nao quis fazer a terapia da fala nem a fisioterapia. gostava mais de estar sentado na esplanada do café a ver passar as pessoas, a beber um copo e a conversar com quem quisesse sentar-se na mesa dele. era um homem cheio de bondade, muito generoso, um amigo fiel. 

o meu pai e a minha mae fizeram-nos a mim e ao meu irmao. quase tudo o que somos hoje devemos-lhes a eles. estavam separados ha muitos anos. refizeram as respectivas vidas com outras pessoas. ficaram amigos. como é que nao se fica amigo de alguem com quem se passou mais de um terço da vida e se teve filhos? os meus pais sempre acharam que os filhos eram preciosos e sempre nos fizeram sentir isso. vejo a minha mae a olhar para o meu pai ja sem poder dizer uma palavra e imagino-a a pensar nisso. a lembrar-se do homem por quem se apaixonou, que amou e que lhe deu dois filhos.
e como é que se acredita que uma pessoa que nos é tao proxima nao possa dizer mais nada, nunca mais? o meu pai que estava sempre à escuta, sempre que o chamavamos respondia logo "diz" ou ia imediatamente ver o que se passava. isso valeu-lhe uma cicatriz no rosto. era destemido. dava a camisola dele ao proximo e ficava despido, se fosse preciso. pouco lhe escapava. nao ficava na duvida, agia. o meu pai atirou-se à agua para salvar uma pessoa. sem pensar se ela estaria a brincar ou nao. nadou até la ao fundo. foi ver o que se passava e trouxe-a pela agua até à terra, fez-lhe respiraçao boca a boca e salvou-a. o meu pai saiu de casa a meio da noite quando ouviu a vizinha da frente gritar. nao sabia se era ladrao, se era o marido, se era brincadeira. foi la ver o que se passava. e agora eu estou ao lado dele, olho para o meu pai mas nao é ele que vejo. digo muitas vezes baixinho "pai. pai. pai" e ele nao pode ouvir-me e nao vira a correr ver o que se passa.

hoje andei pela cidade sempre a pé. de benfica, em direcçao à gulkenkian, para ir ver o almada. no caminho passei em frente ao hospital e foi ai que me caiu a ficha. foi ha duas semanas. estivemos 4 dias à espera de vê-lo morrer. esses dias foram terriveis. mas os que os precederam foram ainda piores porque tinhamos esperança. se ele comia um queque inteiro queria dizer que estava a melhorar. e agarramo-nos a isso. queremos acreditar que o milagre é para nos. lembro-me dessa quinta-feira. entrei no quarto e ele estava cansado. fechava e abria os olhos muito devagar. nao queria deixar cair as lagrimas, mas ja nao consegui. ele olhou para mim e perguntou-me se tinha pus nos olhos. chorei. chorei. chorei. disse-lhe para ele descansar e fiquei so ali a chorar agarrada à mao dele. o meu pai sabia qualquer coisa que nunca nos disse e decerto que pediu aos medicos para nao nos dizerem também. de vez em quando ficava muito sério e dizia "estou lixado".
uma noite a médica foi ao quarto, falou com ele e disse que se ele nao estivesse bem que podia po-lo a dormir para ficar mais confortavel. eu deixei de respirar e olhei para o meu pai porque vi que ele percebeu a mesma coisa que eu. quis gritar e dizer "nao. nao. nao."mas nao fui capaz. o meu pai disse à medica que ia pensar nessa noite e que lhe dizia na manha seguinte. pediu-lhe um beijo. ela deu-lho e saiu do quarto. e veio o dia seguinte e ele esteve sempre a dormir. e no outro também. e no outro. e no outro. e nunca mais acordou. morreu poucos minutos antes do dia dos namorados. de certeza que o fez de proposito. como se nos ligassemos alguma a isso. 
o meu pai vivia no alentejo, ha muitos anos. era um rapaz da lapa, com uma costela de alcantara e outra da madragoa, mas adorava a calma do alentejo, a proximidade com o mar, a pesca. e foi para la que ele foi. tenho a certeza que naquela praia nunca morrera ninguem. acredito nisso do fundo do coraçao. como acredito que ele esta por aqui. as vezes, em segredo peço-lhe um sinal, mas sei que ele nunca mo dara. para nao me fazer medo.

16.10.16

levito


quando me dizes que tenho um sorriso glorioso. quando me dizes que rimo com amoras e entardeceres e que rimo contigo a um nivel que nao sabes explicar. quando percebo que as nossas frases fazem pausas ao mesmo ritmo. quando me lês em voz alta. quando dizes "entonteces-me". quando falamos de magicos e feiticeiras. quando poes o teu ar sério. quando me envias postais incendiarios. quando me falas de figos e me das vontade de comprar romãs e falar de capicuas, ainda que nao seja assunto da época. 
gosto que me lembres que estou viva.