cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





27.2.17

para sempre



o meu pai morreu. 

faz 15 dias e acho que so percebi isso hoje. os estores da casa dele nunca mais abriram. ele nunca mais veio à janela ver-me entrar em casa. nunca mais me pediu para comprar bolos com creme. nunca mais fez sons com a boca ou bateu palmas para nos chamar. o meu pai era um excelente conversador e tiraram-lhe as cordas  vocais. deixou de falar e essa foi a primeira facada que lhe deram. ele aprendeu a viver com isso. muito melhor do que alguma vez eu imaginei. até ele. tinha muito orgulho quando lhe diziam que percebiam perfeitamente o que ele dizia. nao quis fazer a terapia da fala nem a fisioterapia. gostava mais de estar sentado na esplanada do café a ver passar as pessoas, a beber um copo e a conversar com quem quisesse sentar-se na mesa dele. era um homem cheio de bondade, muito generoso, um amigo fiel. 

o meu pai e a minha mae fizeram-nos a mim e ao meu irmao. quase tudo o que somos hoje devemos-lhes a eles. estavam separados ha muitos anos. refizeram as respectivas vidas com outras pessoas. ficaram amigos. como é que nao se fica amigo de alguem com quem se passou mais de um terço da vida e se teve filhos? os meus pais sempre acharam que os filhos eram preciosos e sempre nos fizeram sentir isso. vejo a minha mae a olhar para o meu pai ja sem poder dizer uma palavra e imagino-a a pensar nisso. a lembrar-se do homem por quem se apaixonou, que amou e que lhe deu dois filhos.
e como é que se acredita que uma pessoa que nos é tao proxima nao possa dizer mais nada, nunca mais? o meu pai que estava sempre à escuta, sempre que o chamavamos respondia logo "diz" ou ia imediatamente ver o que se passava. isso valeu-lhe uma cicatriz no rosto. era destemido. dava a camisola dele ao proximo e ficava despido, se fosse preciso. pouco lhe escapava. nao ficava na duvida, agia. o meu pai atirou-se à agua para salvar uma pessoa. sem pensar se ela estaria a brincar ou nao. nadou até la ao fundo. foi ver o que se passava e trouxe-a pela agua até à terra, fez-lhe respiraçao boca a boca e salvou-a. o meu pai saiu de casa a meio da noite quando ouviu a vizinha da frente gritar. nao sabia se era ladrao, se era o marido, se era brincadeira. foi la ver o que se passava. e agora eu estou ao lado dele, olho para o meu pai mas nao é ele que vejo. digo muitas vezes baixinho "pai. pai. pai" e ele nao pode ouvir-me e nao vira a correr ver o que se passa.

hoje andei pela cidade sempre a pé. de benfica, em direcçao à gulkenkian, para ir ver o almada. no caminho passei em frente ao hospital e foi ai que me caiu a ficha. foi ha duas semanas. estivemos 4 dias à espera de vê-lo morrer. esses dias foram terriveis. mas os que os precederam foram ainda piores porque tinhamos esperança. se ele comia um queque inteiro queria dizer que estava a melhorar. e agarramo-nos a isso. queremos acreditar que o milagre é para nos. lembro-me dessa quinta-feira. entrei no quarto e ele estava cansado. fechava e abria os olhos muito devagar. nao queria deixar cair as lagrimas, mas ja nao consegui. ele olhou para mim e perguntou-me se tinha pus nos olhos. chorei. chorei. chorei. disse-lhe para ele descansar e fiquei so ali a chorar agarrada à mao dele. o meu pai sabia qualquer coisa que nunca nos disse e decerto que pediu aos medicos para nao nos dizerem também. de vez em quando ficava muito sério e dizia "estou lixado".
uma noite a médica foi ao quarto, falou com ele e disse que se ele nao estivesse bem que podia po-lo a dormir para ficar mais confortavel. eu deixei de respirar e olhei para o meu pai porque vi que ele percebeu a mesma coisa que eu. quis gritar e dizer "nao. nao. nao."mas nao fui capaz. o meu pai disse à medica que ia pensar nessa noite e que lhe dizia na manha seguinte. pediu-lhe um beijo. ela deu-lho e saiu do quarto. e veio o dia seguinte e ele esteve sempre a dormir. e no outro também. e no outro. e no outro. e nunca mais acordou. morreu poucos minutos antes do dia dos namorados. de certeza que o fez de proposito. como se nos ligassemos alguma a isso. 
o meu pai vivia no alentejo, ha muitos anos. era um rapaz da lapa, com uma costela de alcantara e outra da madragoa, mas adorava a calma do alentejo, a proximidade com o mar, a pesca. e foi para la que ele foi. tenho a certeza que naquela praia nunca morrera ninguem. acredito nisso do fundo do coraçao. como acredito que ele esta por aqui. as vezes, em segredo peço-lhe um sinal, mas sei que ele nunca mo dara. para nao me fazer medo.

7 comentários:

Adriana Oliveira disse...

Oh Joana, lamento tanto! Apesar de muito triste, este post é uma bonita homenagem a ele. Um beijinho de força

Ana Almeida disse...

Beijinho

Zia disse...

Que relembres sempre e partilhes essas memórias. Beijinho

rosa disse...

Um abraço sentido.
E que o teu pai possa ser um ponto de luz no teu caminho.

Anita disse...

Lamento muito a Vossa perda... Beijinho e abraço apertado*

Mam'Zelle Moustache disse...

Que as memórias boas te ajudem a prosseguir o teu caminho com um sorriso nos lábios.
Abraço apertado. Força!

Ana Fernandes disse...

Lamento muito! Tb peço sinais à minha mãe e já houve momentos em que os senti lindos, de uma vibração que só pode vir dela. E sei que nunca são enviados num contexto que me assuste. Beijinho e força