cela me rassure d'avoir la confirmation qu'il est des choses qui demeurent intactes * philippe besson

one of the secrets of a happy life is continuous small treats * iris murdoch

it's a relief sometimes to be able to talk without having to explain oneself, isn't it? * isobel crawley * downtown abbey

carpe diem. seize the day, boys. make your lives extraordinary * dead poets society

a luz que toca lisboa é uma luz que faz acender qualquer coisa dentro de nos * mia couto





13.1.26

Naperon

 


Regresso do 'mundo dos mortos', aos poucos, porque esta transição passa pela hibernação. Acordei a pensar no magnésio, que se calhar devia tomar qualquer coisinha, porque o corpo anda pesado para levar a casa para a frente. O corpo que é a própria casa.
Não tomo decisões de ano novo porque sou uma insolente e, nestas coisas, não tenho palavra, por isso, é melhor não se contar comigo. Mas gosto de escrever com as mulheres do Largo e quero muito continuar neste projecto que nos leva, através das palavras, a falar sobre assuntos muito diferentes, todas as semanas. 

 Gosto muito de naperons, sucede que não sabia o que dizer sobre eles. Lembrei-me deste que tinha em casa, não sei se vinha de uma feira da bagageira, se de uma loja de caridade. 

O que é um naperon? É um objecto decorativo feito em crochet ou em tricot. Embeleza as casas e os dias de quem sabe fazê-los e gosta de trabalhar as linhas para ocupar o tempo.
O que me embeleza os dias e a casa são coisas fugazes. Porém, sábado passado, lembrei-me que podia falar de naperons por três razões. Eu estava no trabalho, a minha segunda casa, para o primeiro sábado de abertura do ano. Ia ser uma manhã especial porque o A. estava de volta de Paris, para passar poucos dias em Lisboa. A história dele é incrível, mas não a posso contar. Posso dizer que o conheci porque ele vinha de vez em quando à biblioteca perguntar se podia usar o piano. Dali passou a participar noutras actividades e, mais tarde, passou a fazer parte da programação de música da biblioteca. Ter uma pessoa a tocar piano, de manhã, ao vivo, num lugar cheio de livros, é uma sensação de apaziguamento única. Observo os leitores e vejo que nos sábados em que há piano o comportamento deles muda. Tornam-se gatinhos à janela, piscam os olhos lentamente, encostam-se umas às outras, brincam vagarosamente com o fio do novelo.


Veio o L. com o pai. Pequenino e loiro, com ar de reguila, trazia um presente em troca, ou num gesto de agradecimento, de todos os bombons e madalenas que me 'rouba', com a devida autorização, da lata de bolachas da Normandia, que passou a servir para todo o tipo de doces. A criançada já sabe que lá dentro há sempre surpresas e, quando vêm registar os livros, perguntam se a podem abrir. Sábado, o L. trazia para mim uma tablete de chocolate francês e uma pedra de cerâmica de relaxamento. A pedra, côncava e envernizada, vinha agarrada ao papel explicativo de como usá-la, entre o polgar e o indicador, através de um fio de lã vermelho enrolado várias vezes à volta dela e, a rematar, com um laço a apertar. Em troca dei-lhe uma tartaruga da Playmobil que me tinha saído há tempos num happy meal. Ele ficou maravilhado. Estendeu-me os dois presentes e disse que o chocolate era o preferido da mãe dele e que a pedra em cerâmica tinha sido ela a fazer.


Veio, mais tarde, um jovem, alto. Queria saber como funcionava a biblioteca, que ia estar em Lisboa 6 meses e perguntou-me sobre as condições de adesão. Expliquei-lhe como funcionava e sugeri que desse uma volta para ver o que propunhamos. Talvez quinze minutos depois entra o C., deseja-me bom ano e devolve os documentos requisitados antes das férias. O piano toca e ele fala comigo baixinho. O jovem  alto passa pelo balcão de empréstimos, despede-se, mas repara numa escada que leva à parte de cima da biblioteca. Vejo-o subir antes de sair. O C. olha-me perplexo e pergunta se é C. Digo-lhe que não sei o nome do rapaz alto. Ele insiste: mas não é o meu filho C.? Digo que não sei, que penso que nunca vi o filho dele. 

O piano toca mais alto e quase que deixo de o ouvir, mas vejo-lhe o rosto indefeso. Ele diz que não fala com o filho há 3 anos, perderam o contacto quando se separou da ex mulher. Confronto-me com aquela confidencia íntima e com o estado desarmado de um homem gigante. Sugiro que suba as escadas para confirmar se se trata do filho. Ele assente, como uma criança pequena a quem se pede que pergunte uma informação a um desconhecido. É como se o corpo pesasse toneladas e mal conseguisse subir tão poucos degraus. Chega a terreno plano, finge consultar a prateleira de livros e aproxima-se do jovem alto. De baixo observo-os, dois homens frente a frente trocam algumas palavras que não consigo ouvir e, de repente, abraçam-se. Conversam alguns minutos, poucos. O C., pai, desce . Tem os olhos molhados e brilhantes. Dá-me rapidamente conta do reencontro e vai escolher novos livros. Depois despede-se. Por esta altura, sei que o filho está cá seis meses e que está hospedado num alojamento muito perto da casa do pai.


A vida na biblioteca continua. São 12h40 quando olho para o relógio e percebo que a manhã passou num abrir e fechar de olhos. Uma manhã, habitada e decorada pelo mais belo naperon. Linhas que se cortam, reencontram, constroem, seguem caminhos diferentes, têm pontos distintos, voltam a juntar-se até que rematam. Rematam o ponto, o dia, a vida. Corta-se a linha, o sino dá a uma da tarde e saio com este lindo pedaço de história na memória. 

 

Esta publicação inscreve-se no projecto Largo onde escrevem várias mulheres. 

Helena Araújo, no 2 dedos de conversa 

Carla R., no A curva 

Maria João, no A gata Christie

Rita Dantas, no Boas intenções  

Mariana Leite Braga, no Gralha Dixit 

Marisa Maurício, no Quinta da Cruz da Pedra 

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